terça-feira, 19 de abril de 2011

Resenhando, por Irene

Minha mãe acabou de me mandar por e-mail dois textos. Um que ditei aos cinco anos, outro que meus sobrinhos escreveram. Não resisti e resolvi postar aqui para vocês. Sim, sempre tive uma tendência ao drama, e percebam que nunca gostei de fadas; para constatar isso basta ler o final fatídico de minha história.

Mariana e Guilherme foram mais positivos em sua história.

Mammys com toda sua doçura faz uma introdução deliciosa. Bora lá?

 

Eu tenho guardado há vinte e oito anos um texto que me foi ditado pela minha filha Alba
num daqueles momentos em que todas nos sentávamos na sala; uma vendo televisão, outras
brincando ou conversando e, às vezes, alguma sobrava para mim.
Não consigo me lembrar exatamente quando foi que o fato aconteceu: se foi numa daquelas
tardes preguiçosas de domingo ou em qualquer noite da semana, após o jantar. Só sei que
fui anotando num bloquinho a história que ela me ditava e a guardo até hoje.
Lembro-me também que mostrei o texto alguns dias depois para a diretora da escola onde
eu era assistente e ela, após elogiar a sua criatividade, saiu-se com o seguinte comentário:
_”É uma pena que, quando ela estiver na escola, na fase de alfabetização, as pressões do
dia-a-dia, a dificuldade de colocar no papel o que lhe vai na cabecinha vão, com certeza,
fazer diminuir essa capacidade de imaginação e de criatividade”.
Isso é só um preâmbulo. Vamos ao texto:

O MUNDO ENCANTADO

Era uma vez uma terra. Ela tinha um monte de coisas bonitas: fadas, flores falantes, terra
falante, coisas que alegram.
Um dia, uma flor foi para a casa da amiga dela. Chegou na casa da amiga dela e viu uma
surpresa muito grande. Adivinhe o que era? Um aniversário.
A florzinha ficou muito alegre por ver aquela surpresa grande. Ela recebeu muitas flores.
Por então(sic), a fadinha estava brincando de escorregador no arco-íris, caindo no pote de
ouro. As moedas do pote de ouro eram muito valiosas.
O chão também estava muito alegre porque as árvores, as flores, os matos ficavam em cima
dele.
Daí a festa acabou. O chão ficou triste porque tinha tudo acabado. A fadinha ficou triste
porque tudo tinha acabado. A florzinha ficou muito triste também. O mundo da cidade
deles já estava destruído e a fadinha estava desaparecendo. A florzinha estava murchando e
os matos estavam ficando amarelos.
Quando a cidade se destruiu, eles todos morreram. E a cidade ficou feia e nunca mais
ninguém apareceu por lá porque a cidade estava muito feia. Agora, desculpem, meus
amiguinhos, porque a história já acabou.

O tempo passou e felizmente a profecia daquela diretora não se concretizou. A autora do
texto continua a escrever com a mesma desenvoltura que teve quando ainda não conseguia
passar para o papel o que lhe ia na cabecinha.

Hoje, estou aposentada e, muitas vezes, fico tomando conta dos netos. Numa tarde dessas
estavam, em casa, Guilherme, de sete anos e Mariana, de seis. Depois de muito brincarem e
após o café da tarde, resolveram brincar de contar história. O interessante é que resolveram
inventar a história em conjunto. Cada um fazia uma parte e a vó foi intimada a escrever a
história para eles. (Os dois já estão alfabetizados, mas a lentidão na escrita os atrapalha).
A parte narrativa foi a Mariana quem fez, bem como os diálogos em que entra a princesa
Gabriela. O Guilherme deu voz para a bruxa Antônia, para seu servo e para o príncipe
Tigor. Eu dava alguns palpites, mas a maioria não foi aceita. Aí vai a história:

Um dia o príncipe Tigor e a princesa Gabriela foram para a floresta sombria, para se

encontrarem com os seus unicórnios e irem voar com eles pelo céu. O unicórnio de
Gabriela tinha cabelo cor-de-rosa, o do príncipe Tigor, azul. Estavam voando, quando
foram vistos pela terrível bruxa Antônia e seu fiel servo Cabeça de Bola de Cristal(nome
dado pelo Guilherme).
Antônia: - Há! Há! Há! Meu servo Cabeça de Bola de Cristal!!!
CBC: - Que foi, minha rainha?
Antônia: - O que você está vendo?
CBC: - Eu vejo um unicórnio de cabelo rosa com a princesa também de cabelo rosa e o
unicórnio e o príncipe, os dois de cabelo azul.
Antônia: - Eu vou mandar os dois para a maldição do caldeirão mágico!
CBC: - Eu vou fazer uma mágica para acabar com eles no céu. Vou derrubar os unicórnios
e tingir os cabelos deles de marrom e branco.
Os dois foram derrubados na floresta.
Princesa Gabriela: - Ai! Tem uns bichos aqui!
Príncipe Tigor: - Eu vou matá-los!
Princesa Gabriela: - Você tem certeza de vai fazer isso? Eles são muito selvagens. Ai! Eu
vou desmaiar! Vamos, então, rápido! Eu acho que esses bichos vão matar a gente...
(Ela desmaiou por muito tempo).
Príncipe Tigor: - Eu vou controlar esses bichos, matando-os. Eu não tenho medo de nada!
Eu vou levá-la para o castelo nos unicórnios. Tenho que ser rápido: salvar a princesa, lutar
com os bichos e voltar para o castelo para ver como a princesa está.
(E assim ele fez.)
A bruxa foi atacá-los, mas o príncipe atacou-a com a espada e a matou. A princesa acordou,
eles se casaram e foram felizes para sempre.

 

Lendo os dois textos, a gente vê que neles já estão presentes os três momentos do texto
narrativo: equilíbrio inicial, ruptura do equilíbrio e, finalmente, volta ao equilíbrio inicial
ou encontro de um novo ponto de equilíbrio. Isso quer dizer que as crianças já têm,
intrinsecamente, a estrutura do romance, conto ou qualquer que seja o texto narrativo.
Importante agora é a gente torcer para que, a exemplo da Alba, nada impeça essa chama de
manter-se acesa.
(IRENE)

3 comentários:

Déia disse...

LINDO, LINDO, LINDO!!!
Adorei os textos (dos seus sobrinhos mais ainda! rs), mas principalmente os comentários da sua mãe *-*

Beijos


PS.: Acho que sua mãe deveria entrar para a equipe do Psychobooks!! rs

Aurea disse...

Ai que orgulho da minha filha e do meu sobrinho!!! Obrigada por tudo mãe!!!!!

Adriele disse...

Lindas as historinhas. A Alba criança toda dramática, com tendências suicidas, e o Guigui e a Mari assassinos em potencial... hehehe
Brincadeira, adorei a atenção que a mãe deu a isso. Boa, Irene!
beijos